A Web3 está incluindo — ou apenas reorganizando a exclusão?
A emergência da Web3 e das Finanças Descentralizadas (DeFi) tem sido apresentada como promessa de democratização econômica. No entanto, quando confrontada com as desigualdades estruturais do capitalismo contemporâneo, essa narrativa revela-se menos como ruptura e mais como reconfiguração das formas de exclusão.
A geração pré-digital (1955–1975) encontra-se submetida a um processo acelerado de adaptação a um ecossistema técnico complexo, frequentemente sem dispor das condições necessárias para uma participação segura e autônoma. Nesse cenário, a inclusão tecnológica opera de forma seletiva, beneficiando aqueles já dotados de capital técnico e cultural, enquanto expõe os demais a novas formas de vulnerabilidade econômica.
Sob a perspectiva da Teoria Crítica, especialmente em Horkheimer, a tecnologia não atua como instrumento neutro, mas como extensão da razão instrumental. No contexto da Web3, isso se traduz na organização da experiência por meio de códigos e protocolos que operam como normas técnicas aparentemente inquestionáveis, subordinando o sujeito à lógica do cálculo.
Ao integrar de forma assimétrica a geração pré-digital, o mercado converte sua exclusão digital em vulnerabilidade econômica, evidenciando que o avanço tecnológico não elimina a alienação — ele a intensifica.
Essa dinâmica se aprofunda quando analisada à luz de Bauman, para quem a modernidade líquida transforma os indivíduos em mercadorias. No ambiente digital, exige-se que a subjetividade se torne “vendável”, reduzindo o sujeito à sua funcionalidade econômica.
Sob a ótica de Enrique Dussel, essa exclusão revela a produção do “Outro”: sujeitos colocados à margem de um sistema que exige adaptação, mas não oferece condições equitativas de participação. A chamada “falácia desenvolvimentista” desloca a responsabilidade da exclusão para o indivíduo, ocultando suas bases estruturais.
Embora tecnologias descentralizadas possam ampliar o acesso a serviços financeiros, esse potencial é limitado pelas desigualdades no acesso à infraestrutura e ao conhecimento. A descentralização não elimina a exclusão — ela a reconfigura.
Diante disso, a questão central não é o acesso à tecnologia, mas a capacidade de compreendê-la criticamente.
É nesse ponto que emerge a necessidade de uma educação cripto orientada não apenas à operação técnica, mas à formação de autonomia. Uma educação que priorize compreensão, segurança e consciência crítica.
A inclusão digital, portanto, não se realiza pelo simples acesso, mas pela capacidade de transformar o uso da tecnologia em prática consciente.
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