A Arquitetura do Vazio: Notas sobre o Entre-Lugares
Escrevo porque o papel aceita tudo. Ele não contesta, não questiona e, fundamentalmente, não cobra por hora. Falar com alguém custa caro — emocionalmente, na fadiga da explicação, e financeiramente, na fatura da consulta. Escrever é de graça e é terapêutico no sentido mais primal da palavra: organiza o caos interno em linhas finas e pretas. Encontro-me hoje no exato centro de um paradoxo. Pela primeira vez na vida, tenho os recursos financeiros para mobiliar a minha nova vida, um espaço privativo que desenhei para ser o meu reduto. No entanto, o "todo dinheiro que posso ter" parece tragicamente insuficiente. Não para comprar um sofá-cama pronto (sem a burocracia de ter que forrar todas as noites), ou uma estante para meus livros-âncora, ou a mesa para os computadores e o banco para a pintura. Para isso, o dinheiro dá. O que o dinheiro não compra é a mobília que realmente importa: o pertencimento, o sentido de lar, o preenchimento do silêncio duro da solidão que,...