O Desembarque no Agora
Hoje não é dia de compras. É o dia em que o território deixa de ser um endereço para se tornar um destino. Hoje a casamata ganha o seu primeiro esqueleto. Não se trata de montar uma arara de metal, mas de erguer as vigas da própria dignidade. Ao esticar o primeiro aramado e decidir que três quartos das roupas antigas não pertencem mais ao homem que caminha no Rio, estou fazendo uma poda. E toda poda, embora pareça perda, é um convite à força. Hoje, vou olhar para o buraco vazio na parede — aquele que um dia soprou o ar frio de um tempo que não volta — e vou imaginar a vida brotando ali. Uma planta que desce, verde e teimosa, cobrindo as cicatrizes da alvenaria. É a natureza ocupando o lugar da máquina, o afeto ocupando o lugar da burocracia. Vou pendurar a minha Thangka. Vou posicionar o Buda. E, pela primeira vez em muito tempo, não vou olhar para o que falta terminar. Vou olhar para o que já começou a ser. A crônica de hoje não tem preço porque é feita de gestos: o encaix...