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O Desembarque no Agora

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Hoje não é dia de compras. É o dia em que o território deixa de ser um endereço para se tornar um destino. Hoje a casamata ganha o seu primeiro esqueleto. Não se trata de montar uma arara de metal, mas de erguer as vigas da própria dignidade. Ao esticar o primeiro aramado e decidir que três quartos das roupas antigas não pertencem mais ao homem que caminha no Rio, estou fazendo uma poda. E toda poda, embora pareça perda, é um convite à força. Hoje, vou olhar para o buraco vazio na parede — aquele que um dia soprou o ar frio de um tempo que não volta — e vou imaginar a vida brotando ali. Uma planta que desce, verde e teimosa, cobrindo as cicatrizes da alvenaria. É a natureza ocupando o lugar da máquina, o afeto ocupando o lugar da burocracia. Vou pendurar a minha Thangka. Vou posicionar o Buda. E, pela primeira vez em muito tempo, não vou olhar para o que falta terminar. Vou olhar para o que já começou a ser. A crônica de hoje não tem preço porque é feita de gestos: o encaix...

A Lição da Poupa

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​Vidinha agora pinta pássaros, e eu descubro a Poupa. Que ironia do destino: eu, o arquiteto que remenda canos e sela buracos, encontro meu par numa ave que investiga a terra com o bico. A Poupa me ensina que não há vergonha em ser "caçadora de solo". Para sustentar a crista de Michelangelo que ela abre quando está alerta, é preciso saber onde furar a terra. E hoje não foi só uma imagem. Foi um vídeo. Vi Vidinha pintando o pássaro com calma e dedicação. Cada pincelada parecia um pequeno ato de liberdade. Enquanto eu lido com massa corrida e cimento, ela dá vida a asas. O contraste não poderia ser mais perfeito. ​Minha casamata no Rio terá o espírito dessa ave. Será um lugar de defesa estratégica — se necessário, exalaremos o cheiro forte da distância para manter os invasores longe do nosso ateliê de alma. Não seremos "delicados" para o mundo; seremos adaptados, estratégicos e, acima de tudo, territoriais. ​Se o público confunde o topete, que confundam...

Uma nova vida começa nas segundas-feiras

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A lua de sábado estava linda. Mas no domingo, ela já se escondeu — o dia amanheceu meio marrento, cinza, friorento, chuviscando sem vontade. Um dia que me obrigou a fazer quase nada.  Se no sábado eu olhei para a silhueta do morro lá longe e senti aquela paz de Shakyamuni, hoje o desafio é outro: manter essa luz acesa enquanto o dia engrena. Começar a semana não é como começar um retiro espiritual; é encarar o corre-corre diário com um olhar diferente. É como ser otimista sem ser bobo. O boleto vence, o imprevisto bate à porta.  Mas aquela aura serena que eu vi na foto passada, pairando sobre o aperto da cidade, precisa morar no peito da gente.  Quando uma vida nova começa, quando percebo que o cenário não é o mesmo, o motorista aqui de dentro mudou de marcha.  A vida toca um samba atravessado e eu decido: tropeço ou vou no sapatinho? Aprendi que um tombo ensina muito mais que um passo reto, um passo marcado. O café feito na pressa vira prece se eu estive...