Aos Sessenta e Poucos, o Chão Tremeu de Novo
Eu não contei para ninguém que, aos sessenta e poucos, o chão tremeu de novo. Não foi terremoto. Foi uma porta se fechando em Jaú e outra se abrindo no 11º andar do Rio. Hoje faz um pouco mais do que um mês exato que o silêncio ganhou peso. Trinta e seis dias desde que a Rachel partiu, levando consigo o projeto de viver 110 anos em plena atividade. Eu, que sempre fui o mestre de obras da nossa história, agora me vejo sem planta, sem cota, sem a parceira que segurava o prumo enquanto eu erguia as paredes. Construímos 21 anos olhando na mesma direção. Prosperamos. Enraizamos. E de repente o vento do Rio levou embora a metade do andaime. Entrei na casamata nova carregando caixas, o joelho esquerdo latejando — lembrete de que o corpo também cobra o pedágio da travessia. Aqui não tem mais o cheiro de Jaú nas paredes. Tem o grafite cinza do amanhecer carioca, o vento que entra pela laje e limpa a alma, e o Buda que ainda não pendurei. Primeiro preciso selar os buracos aqui dentro antes de de...