O 8 de Março e o Ruído das Palavras

​Hoje, 8 de março de 2026, o mundo para — ou deveria parar — para encarar as mulheres de frente. Sem a distração das flores, dos chocolates ou das frases prontas que inundam o Instagram.


O Dia Internacional da Mulher não nasceu para ser festa; nasceu do barulho de greves, de fábricas em chamas e de vozes roucas exigindo o básico: pão, paz e dignidade.

​Passei o dia acompanhando o que disseram sobre elas. Vi de tudo: do elogio vazio que tenta compensar o machismo de ontem, à exaltação da "força feminina" que, na prática, serve apenas para romantizar o cansaço de mulheres sobrecarregadas.

Ouvi discursos bonitos vindos de onde a prática é feia. É um ruído constante de homenagens que, muitas vezes, servem apenas para abafar os gritos de socorro que os números insistem em mostrar.

​Este ano, a ONU foi seca: “Direitos. Justiça. Ação. Para TODAS”. E é exatamente contra o que mascara essa urgência que eu me posiciono hoje. Como cronista, tento enxergar o que a purpurina das redes sociais insiste em disfarçar.

​O retrato brasileiro é uma vergonha exposta. Em 2025, o país registrou mais de 1.500 feminicídios. Mulheres mortas apenas por existirem, a maioria dentro de casa, pelas mãos de quem dizia cuidar. Ainda ouvimos que foi "ciúme" ou "briga de casal", como se a violência tivesse uma justificativa aceitável. O medo do estupro assombra 82% das brasileiras. Enquanto isso, o machismo estrutural segue operando no automático, sendo invisível para quem se beneficia do sistema.

​Minha crônica é contra a discriminação que começa no detalhe: na menina que ouve que "isso não é comportamento de moça", no currículo descartado pelo gênero, na dor ignorada pelo médico que a chama de "frescura". Sou contra o uso do corpo feminino como campo de batalha ideológico. Contra o silêncio cúmplice que protege o "bom pai" enquanto a mulher é acusada de "ter provocado".

​Toda discriminação de gênero é, no fundo, uma forma de violência. Algumas são súbitas, outras corroem aos poucos. A justiça que falta não está só nos tribunais, mas no cotidiano. É a ação que pune o assédio sem rodeios e que educa meninos para que não se tornem opressores.

​Não quero repetir que “mulher é tudo” — a frase foi tão dita que esvaziou. Prefiro dizer que mulher é gente. Gente que merece trabalhar sem barreiras invisíveis, amar sem risco de morte e falar sem ser chamada de histérica. Seus direitos não são negociáveis.

​Que este 8 de março não termine em "parabéns". Que seja um dia de indignação lúcida. Enquanto uma única mulher for assassinada por ser quem é, ou uma única menina for ensinada a abaixar a cabeça, a data não será de celebração. Será de cobrança.

​Como cronista, escolho a cobrança. Escolho estar do lado delas. De todas elas.

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