A Arquitetura do Vazio: Notas sobre o Entre-Lugares
Escrevo porque o papel aceita tudo. Ele não contesta, não questiona e, fundamentalmente, não cobra por hora. Falar com alguém custa caro — emocionalmente, na fadiga da explicação, e financeiramente, na fatura da consulta. Escrever é de graça e é terapêutico no sentido mais primal da palavra: organiza o caos interno em linhas finas e pretas.
Encontro-me hoje no exato centro de um paradoxo. Pela primeira vez na vida, tenho os recursos financeiros para mobiliar a minha nova vida, um espaço privativo que desenhei para ser o meu reduto. No entanto, o "todo dinheiro que posso ter" parece tragicamente insuficiente. Não para comprar um sofá-cama pronto (sem a burocracia de ter que forrar todas as noites), ou uma estante para meus livros-âncora, ou a mesa para os computadores e o banco para a pintura. Para isso, o dinheiro dá.
O que o dinheiro não compra é a mobília que realmente importa: o pertencimento, o sentido de lar, o preenchimento do silêncio duro da solidão que, às vezes bem-vinda, em outras cobra um imposto alto demais sobre a alma.
A vida me trouxe uma mudança que não pedi. Há duas semanas, eu estava ao lado da minha esposa adoentada em uma cama de hospital. Assisti, impotente, a sua vida se esvair, dia após dia. Eu era inquietação; a morte era certeza. Eu era cuidador; agora sou um viúvo. Meus objetivos e sonhos — todos os sonhos do mundo, que é o mesmo que não ter nenhum em especial — mudaram de lugar, cenário e contexto.
A individualidade que sempre cultivei agora se sente, paradoxalmente, ameaçada. Não por invasores externos, mas pela perda de contorno. Quando o "outro" com quem você conviveu se vai, o seu próprio "eu" fica exposto, cru, sem o espelhamento da rotina. Talvez, como parodiou Fernando Pessoa, "ser ninguém é o melhor dos mundos". Eu não quero ser nada, talvez nunca serei nada, e agora nem posso querer ser nada. Mas, à parte isso, tenho em mim esse oceano de sonhos que não sabem para onde ir.
Onde me encontro agora? De passagem. O endereço é novo, mas o estado de espírito é de uma triagem de guerra. O tumulto é a única paisagem visível. Meu sofá — que deveria ser descanso — está sepultado sob amontoados de roupas, cabides e memórias que ainda não sei se levo ou deixo. É um final de semana de "ajustes e detalhes", expressões técnicas que escondem o peso de cada escolha logística.
Estou em rascunho. Não sei qual sofá, qual cadeira, nem qual banco. Não sei distinguir o prático do emocional. Tudo está fundido na névoa da sobrevivência consciente.
O que me resta é a sabedoria dos marinheiros antigos: firmar o leme, ajustar as amarras e esperar. Não sei se ventos, maremotos ou calmarias virão. Apenas sei que, entre o lugar de pendurar as roupas e as gavetas onde guardarei minha intimidade, existe um espaço que é meu. Pela primeira vez, a decisão de fechar ou abrir a gaveta é estritamente minha. E, neste momento de transição, isso não é a solução, mas é o primeiro tijolo dela.
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