Entre a Poeira e a Promessa: Crônica do Homem em Transição
Existem dias em que a geopolítica do 11º andar sofre um golpe de estado. Hoje foi um desses. O golpe veio sem aviso — em forma de pedreiros, marreta e um banheiro transformado em cratera. O cano lá de baixo deu a ordem, e aqui em cima meu santuário foi invadido sem negociação possível.
O cenário é digno de crônica: no quarto, os netos dormem o sono dos justos, imunes ao desastre como se existissem numa dimensão paralela ao cimento. Na sala, o cachorro exerce sua vocação de alarme anti-aéreo, latindo para cada pedreiro que ousa passar com um balde de entulho. E no meio desse teatro, eu, o Centauro, tentando calcular a logística do almoço enquanto meu próprio asseio jaz sob escombros.
Não há Buda ou café que resista incólume a uma obra de emergência.
A solução foi a fuga diplomática. Calçar o tênis, pegar a guia e levar o bicho para latir para o mundo lá embaixo. Às vezes a gente precisa descer do pedestal do 11º andar para lembrar que a vida continua pulsando na calçada — longe da poeira, longe da marreta, longe da versão de si mesmo que ainda não terminou de se mudar.
Porque essa é a ironia fina de estar em transição: você ainda não chegou, mas já não pertence mais ao que ficou para trás. O endereço é provisório. O plano de saúde não cruzou a fronteira estadual. A prótese dental exige um jato de limpeza que teima em ficar guardado em outra cidade. Você planeja o envio de remédios por Sedex como quem coordena uma operação de suprimentos em zona de guerra — e de certa forma, é exatamente isso.
Não sou hoje o garimpeiro do ouro de maio. Sou o sobrevivente do entulho de abril.
Mas enquanto caminho com o cachorro pela rua, entendo que esse tumulto tem endereço certo: é o preço da transição. O Estado Independente não é feito de paredes — é feito de paciência. E paciência, diferente de cimento, não racha.
A poeira vai baixar. O cano será trocado. O silêncio — esse silêncio — será o maior troféu quando eu finalmente girar a chave da casa nova.
Por enquanto, sigo tocando o barco. Um passo de cada vez, longe da marreta e perto do que ainda me resta de paz.
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