O Jogo das Frestas e o Olhar de Esguela

Levo a vida aqui como quem joga sinuca no fundo de um boteco. Aquela tacada do Carne Frita — giz no taco, batida seca — e a gente já sente, antes mesmo de a bola tocar na outra, que ela nasceu com o buraco marcado. Se João Antônio passasse hoje pela Major Prado, reconheceria a cena: uniforme de firma, manga curta, café requentado de balcão. Cada um repetindo a mesma peça. Malagueta, Peru e Bacanaço nas esquinas e nos balcões, cada qual certo de que seu jogo é invisível.

Jaú tem a lógica de uma casa velha. O móvel novo só entra se couber exatamente no buraco que já existe na parede. Sobrou um milímetro? A cidade poda. O espírito dos antigos fazendeiros ainda governa: separar quem é "gente da gente" de quem é sobra. Família, por aqui, não é só afeto. É cerca. Cercar o gado para ninguém fugir com o dinheiro ou com o sobrenome. A fazenda virou cidade, mas o chicote virou invisível e as cercas, privilégios.

As ruas são estreitas, feitas para não deixar o ar circular. Quem caminha sente o asfalto quente tentando esconder as pedras antigas, mas o paralelepípedo continua lá, duro, por baixo de tudo. Não sai, assim como a mentalidade que o assentou. E há a esguelha — aquela olhadela de lado, desconfiada, que mede o sujeito do sapato ao chapéu para saber se o sangue é "bom". A vida que manda não está na praça. Está nas internas, atrás de portão fechado e interfone que só atende nomes carimbados.

Observo essa gente. O Malagueta de sempre queima a língua de quem tenta mudar a prosa. O Peru estica o pescoço para ver quem ganhou um trocado a mais na serralheria — só para decidir se o sujeito tem berço para sentar à mesma mesa. E o Bacanaço apodrece no luxo das próprias memórias, achando que o resto da cidade é peça de trator: descarta-se quando para de produzir.

A frase que as famílias usam para barrar o futuro é curta: "não é gente daqui". Se você não tem sobrenome de barão nem chaminé que se veja de longe, sua inteligência não compra nem linguiça no açougue. O valor do homem mede-se pelo que tem no banco e por quem foram seus avós. Nunca pelo que carrega na cabeça.

Mas algo muda no cheiro. O couro, que foi rei, agora briga com a solda e com o pó fino das marcenarias de MDF que surgem nas esquinas. A cidade começa a trabalhar sozinha, pulsando à revelia dos donos do poder que ainda sonham com o café.

Mudar Jaú não é desejo. É urgência. Não pelo fim dos Malaguetas, Perus e Bacanaços — eles sempre existirão em algum lugar. Mas para que a felicidade deixe de ser troféu em cristaleira de herdeiro e vire coisa miúda, de todo mundo, na rua.

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