O Cimento da Alma e o Uber da Liberdade


O dia amanheceu com aquela cor de concreto seco, combinando com o pó que insiste em virar dono da casa. Olho para o lado e não vejo refúgio — é um canteiro de obras. A marreta é um barulho que incomoda mesmo, o maior é o da engrenagem aqui dentro: o senso de responsabilidade.

Tem trabalho acumulando na tela, sem computador, tem prazo gritando no ouvido, e a reforma... ah, a reforma. Ela tem um tempo próprio, um fuso horário particular onde o "amanhã" é uma variável abstrata e o "está quase pronto" é uma mentira compartilhada.

Tudo demora. A tinta e o cimento demoram a secar, o remendo da parede que não chega, e a paciência, que era um estoque vasto, bateu no fundo do barril.

Aí vem o estalo. Aquele curto-circuito entre o "preciso fazer" e o "não aguento mais". É a inquietude de quem se sente estrangeiro no próprio sofá.

Ninguém foi feito para viver sozinho no meio do entulho, e ninguém foi feito para ser produtivo enquanto respira poeira de obra.

Ontem a alergia bateu, Botei o chapéu e o tênis e a fuga — foi manobra de sobrevivência.

Quando cliquei no "Confirmar Uber", assinei um tratado de paz comigo mesmo. É o "dane-se" mais lúcido da semana. 

Deixei os caras lá, se virando com o quebra-quebra, e para entender que não serei o mestre de obras da vida de ninguém hoje.

O carro chegou. A porta fechou e o som do mundo lá fora virou um abafado distante.

O trabalho? O meu trabalho. Este continua lá. A poeira? Também. 

Por algumas horas, entre um corredor de shopping e um café, recuperei o território mais importante: o silêncio interno.

Às vezes, para a vida andar, a gente precisa sair de cena. O Rio nublado lá fora não julga — só convida a ser, por uma tarde, apenas um passageiro.

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