O Passageiro do 474
O sol ainda não venceu o cinza, mas o despertador da angústia não conhece soneca. São cinco da manhã e o Rio nublado lá fora não julga — apenas observa, com a cumplicidade de quem já viu mil naufrágios em terra firme.
Hoje a jornada não é turística; é uma travessia de sobrevivência, como a rota emblemática do 474. A vida virou esse ônibus barulhento que cruza a cidade, do caos do Jacaré ao mormaço do Jardim de Alah.
No 474 da alma, a gente não escolhe quem senta ao lado. Às vezes, o passageiro é a cobrança de um aluguel que sufoca; outras vezes, é o ufanismo de quem brilha enquanto a gente se apaga, ou o peso de um filho que se perdeu em curvas que o pai não desenhou.
Olho para as mãos: elas tremem levemente, mas ainda sabem segurar o que é firme. A mochila com o laptop é o meu bilhete de embarque.
Não é mais sobre carreira, é sobre ser "o cara que resolve". É sobre terminar o último serviço, entregar a última chave e saltar desse ônibus antes que ele me leve para um destino que não sei.
Sinto falta de mim. Sinto falta do homem que não tinha poeira nos olhos e nem cacos de vidro no lugar do coração. O mar... eu penso no mar.
Não como destino de férias, mas como o fim do barulho. As montanhas do Rio são lindas, mas hoje elas me cercam como grades.
O mar não. O mar é o deserto de água onde eu posso, finalmente, não ser nada para ninguém. Ser nada para ser eu mesmo de novo.
O Uber chega. A porta bate. O som do mundo vira um abafado distante. Por algumas horas, serei apenas um passageiro. Sem passado em Jaú, sem futuro de dívidas, sem presente de obras. Apenas um homem, um chapéu, um tênis e uma incógnita a cada segundo.
Viver é isso: descobrir que, às vezes, a melhor estratégia é saber a hora exata de desembarcar.
Fernando Tobgyal
(Imagem produzida por IA)
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