A Geometria da Mudança
O caos das caixas de papelão pelo chão é o rascunho de uma vida que se redistribui. Sou o homem invisível entre paredes estranhas, observando Fernando carregar o peso do próprio mundo.
Ele coloca a mesa do escritório contra a janela, buscando a luz do norte, a mesma que banhava os ombros dos mestres sevilhanos.
Há algo de Velázquez nesse gesto de montar um atelier. Ele não está apenas instalando um computador; está delimitando o território da sua observação. Quando ele posiciona a cadeira, ele está definindo de onde olhará para a vida.
O monitor, tela negra e desligada, reflete o quarto ainda em desordem. É o espelho ao fundo de As Meninas. No reflexo, vejo o rastro de uma casa que ficou para trás e a promessa desta que nasce.
Fernando ajusta os fios, as conexões, as memórias. Ele é o pintor que, antes de tocar na tela, precisa garantir que a luz incida exatamente sobre a verdade das coisas.
Ao final do dia, com o corpo cansado e o atelier minimamente organizado, ele se senta. Por um instante, ele é apenas o sujeito da obra. Eu, o invisível, encosto-me na porta. A sala agora tem uma ordem, uma hierarquia, uma estética.
Fernando habita sua própria pintura. E o que ele verá de agora em diante, através daquela janela ou daquela tela de computador, será o resultado desse rascunho que ele mesmo montou, arrastando móveis como quem ajusta a perspectiva de um sonho.
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