A Lua sobre o Entulho


Ontem à noite, a Lua Cheia de maio — a Lua de Vesak — iluminou o céu do Rio de Janeiro. Diz a tradição que esta é a Lua das Flores, a que demarca a iluminação de Sidarta, o momento em que ele passou a enxergar a realidade sem os venenos da mente. Com a visão clara.

Do alto dos meus 70 anos, enquanto olhava o reflexo dessa lua sobre os canos furados e o entulho do banheiro quebrado, senti que recebi um convite parecido. Não pretendo chegar ao nirvana, mas reivindico a minha própria iluminação possível: a maturidade de enxergar as vicissitudes não como fardos, mas como matéria-prima.

Voltar para o Rio, vindo de Jaú, tem sido uma travessia física e espiritual. Estou cercado pelo caos doméstico, pela gestão do improviso e pelo cheiro de tinta fresca. É como no antigo koan zen: como subir em um monte de estrume sem se sujar e de lá retirar um pano muito limpo?

O pano limpo é a minha escrita. É a minha dignidade. É o comando que retomei sobre a minha própria vida.

Nesta nova fase, decidi que o caos externo não me contamina mais. Deixo para trás as propriedades, o ouro e as joias das memórias alheias — como escrevi na despedida de um ciclo de vinte anos — e trago comigo as mãos vazias, porém prontas para o trabalho.

Agora, meu compromisso é com o agora.

Enquanto os pintores dão cor às paredes da casa nova, eu dou ordem ao meu caos particular. Aqui dentro, no meu canto que ainda cheira a pó de obra, entra apenas o que eu permitir. Vou usar este espaço para analisar, me emocionar e, acima de tudo, produzir.

A página virou. O náufrago encontrou terra firme, mesmo que ela ainda precise de reforma. Acompanhem-me nesta série de recomeços, pois a vida, assim como a Lua de Vesak, sempre encontra uma fresta para iluminar o que parecia perdido na escuridão.

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