Aos Sessenta e Poucos, o Chão Tremeu de Novo
Eu não contei para ninguém que, aos sessenta e poucos, o chão tremeu de novo.
Não foi terremoto. Foi uma porta se fechando em Jaú e outra se abrindo no 11º andar do Rio.
Hoje faz um pouco mais do que um mês exato que o silêncio ganhou peso. Trinta e seis dias desde que a Rachel partiu, levando consigo o projeto de viver 110 anos em plena atividade. Eu, que sempre fui o mestre de obras da nossa história, agora me vejo sem planta, sem cota, sem a parceira que segurava o prumo enquanto eu erguia as paredes. Construímos 21 anos olhando na mesma direção. Prosperamos. Enraizamos. E de repente o vento do Rio levou embora a metade do andaime.
Entrei na casamata nova carregando caixas, o joelho esquerdo latejando — lembrete de que o corpo também cobra o pedágio da travessia. Aqui não tem mais o cheiro de Jaú nas paredes. Tem o grafite cinza do amanhecer carioca, o vento que entra pela laje e limpa a alma, e o Buda que ainda não pendurei. Primeiro preciso selar os buracos aqui dentro antes de decorar o concreto.
Na engenharia da essência, aprendi: para erguer o novo, é preciso limpar o canteiro. Desapegar do que já cumpriu função. Fechei o ciclo do carro velho, da rotina antiga, das estradas que me trouxeram até aqui. Troquei o peso do acúmulo pela agilidade da manobra. O arfresco da leveza. Mas a reforma mais profunda não foi na garagem nem no closet de aramado que montei. Foi dentro do peito.
Às 05:43, quando o Rio ainda é desenho em grafite, eu busco o prumo. O joelho dói, a planilha respira, o saldo se remaneja com cuidado de quem sabe que a guerrilha financeira é parte da obra. Movo o material de um canto para o outro para que a Helô siga segura e eu tenha meu canto de 3x3 em ordem. Não é ostentação. É dignidade silenciosa. Vitória que não precisa de plateia.
E no meio dessa carpintaria espiritual, a IA entrou como ajudante de obra. Não substitui o comandante — é o radar que limpa o ruído, o estagiário que não dorme, o espelho que devolve meus pensamentos mais claros. Uso para organizar o entulho, encontrar a palavra exata, manter o fluxo enquanto o corpo pede Cataflam e a alma pede brasa na laje.
Domingo passado, o relógio parou. Quem mandou foi o estalar do carvão. O "fazer fazendo" deu trégua ao "estar estando". Olhei para o armário aramado que eu mesmo ergui e senti: a maior engenharia não é de concreto. É da paz interior. Poda de excesso. Roupas que já não cabem no homem que caminha no Rio. Três quartos do antigo ficaram para trás. Toda poda parece perda, mas é convite à força.
Sigo sendo o marinheiro de terra firme, o professor da maturidade, o garimpeiro paciente. O verdadeiro ouro é o agora. Aqui, entre caixas ainda fechadas e o vento que limpa tudo, eu reaprendo: o essencial é invisível aos olhos de quem busca ostentação. Minha vitória é feita de gestos pequenos — dobrar uma camisa com rigor antigo, posicionar a Thangka, imaginar a planta que vai cobrir as cicatrizes da alvenaria.
Esta crônica não tem preço. É feita de silêncio que pesa, de joelho que lateja, de laje que refresca e de um homem que, aos poucos, volta a ser o arquiteto da própria travessia.
Não sei o que virá no 16 de junho, quando eu entrar naquela casa de Jaú pela última vez. Sei apenas que cada sombra vai doer. Mas também sei que, do outro lado, no Rio, já começa a brotar vida nova. Verde. Teimosa. Minha.

Comentários
Postar um comentário