Espírito de Montanha no 11°. Andar

Não é preciso morar nos Andes ou no Himalaia para carregar uma montanha dentro do peito. Basta um 11º andar com vista para o concreto e para o emaranhado de fios da cidade.

Aqui em cima, o vento bate mais forte e a chuva às vezes vem enviesada. Mas a montanha não se incomoda. Ela aprendeu, ao longo de milênios, que tempestade passa. Sempre passa. 

Eu olho para o morro lá longe e penso: ele não discute o barulho dos ônibus, não fica ansioso com o boleto, não perde o sono porque uma mulher interessante respondeu ou deixou de responder. Ele simplesmente permanece.

Ser montanha é isso:

Ter raiz onde os outros têm pressa.
Ter silêncio onde os outros têm ruído.
Ter paciência geológica num mundo que exige resposta imediata.

A montanha não nega a neve que cai no seu topo; ela a aceita. Sabe que, com o tempo, a neve derrete e vira água que alimenta o vale.

Ushuaia, Buenos Aires, Lima — desejos. Tudo isso é vento. Sopra forte, às vezes quente, às vezes gelado. A montanha sente o sopro, mas não sai correndo atrás dele. 

Deixa o vento passar. E quando o vento for bom e constante, aí sim, quem sabe ela não incline um pouco os galhos?

Enquanto isso, sigo no sapatinho:
Uma crônica por vez.
Uma consultoria por vez.
Uma academia por vez.
Um café feito com atenção por vez.

Porque a verdadeira altitude não se mede em metros. Mede-se na capacidade de olhar o caos da cidade lá embaixo e ainda conseguir ver a lua de sábado brilhando, mesmo que hoje seja uma segunda-feira cinza.

Ser montanha não é ser frio. É ser estável o suficiente para poder ser gentil. E é com essa estabilidade que estou aprendendo a habitar — de verdade — esta nova vida.

Fernando Tobgyal 
Imagem editada com IA

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