O A(r)fresco de Jaú

Enquanto o Rio de Janeiro me impõe a dureza do concreto e o cinza do cimento que amanhã selará as paredes do banheiro, minha mente busca o teto de uma certa Capela que não é a Sistina italiana, e sim uma que habita no interior paulista. 

Onde está Vidinha, que inspirada por Michelangelo, voluntariamente não pinta apenas figuras  aladas; ela liberta os anjos que vivem dentro da cor.

Ela os pinta "como ninguém". Há uma força renascentista em seu traço que contrasta  com a minha "irrotina" de caixas e mudanças. 

Enquanto eu sou o arquiteto que lida com as estruturas pesadas, contratos de locação e relatórios de consultoria, ela é a artista que lida com o etéreo. 

Se Michelangelo viu o sagrado no mármore, o sagrado está desnudado na ponta dos pincéis de Vidinha.

Talvez o meu papel, neste momento de transição, seja justamente o de preparar o solo. 
Eu sou o operário da estrutura, o homem que remenda canos e alinha prazos para que, no silêncio da minha futura casamata, haja espaço para a contemplação do que ela cria. 

Minha urgência é técnica; a dela é atemporal. Enquanto eu luto contra a poeira e o ruído da Sargento, Vidinha luta contra o vazio da tela branca — e vence.

Esses anjos são os guardiões da minha casamata. Quando a Sargento gritar no pátio e 
exigir o relatório, ou quando a saudade bater como uma conta que não fecha, eu  fecharei os olhos e lembrarei que, em algum lugar, o Renascimento acontece todos os dias por suas mãos.

A verdadeira inspiração não precisa de passaporte italiano; ela atravessa a Rodovia Washington Luís, vence a distância entre o luto e o sonho, e bate suave na porta do seu ateliê. 

Eu trago os cacos de Jaú para o Rio, mas deixo com ela – e em Jaú - a responsabilidade de manter o céu aberto. 

Pois, no fim das contas, de nada vale uma fortaleza de concreto se não houver um anjo pintado na parede da alma.

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