O Desembarque no Agora

Hoje não é dia de compras. É o dia em que o território deixa de ser um endereço para se tornar um destino.

Hoje a casamata ganha o seu primeiro esqueleto. Não se trata de montar uma arara de metal, mas de erguer as vigas da própria dignidade. Ao esticar o primeiro aramado e decidir que três quartos das roupas antigas não pertencem mais ao homem que caminha no Rio, estou fazendo uma poda. E toda poda, embora pareça perda, é um convite à força.

Hoje, vou olhar para o buraco vazio na parede — aquele que um dia soprou o ar frio de um tempo que não volta — e vou imaginar a vida brotando ali.

Uma planta que desce, verde e teimosa, cobrindo as cicatrizes da alvenaria. É a natureza ocupando o lugar da máquina, o afeto ocupando o lugar da burocracia.

Vou pendurar a minha Thangka. Vou posicionar o Buda. E, pela primeira vez em muito tempo, não vou olhar para o que falta terminar. Vou olhar para o que já começou a ser.

A crônica de hoje não tem preço porque é feita de gestos: o encaixe de um tubo, o ajuste de um espelho, o silêncio de quem finalmente mudou de lado na cama para ver o sol entrar por um novo ângulo.

Não estou apenas organizando um quarto. Estou organizando a minha liberdade. O fazer fazendo é isso: descobrir que, aos setenta anos, a gente não se aposenta da vida; a gente se promove a autor da própria história.

Fernando Tobgyal
(Imagem gerada por IA)

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