O Prumo da Mudança
Às 05:43, o Rio de Janeiro é um desenho em grafite que o sol ainda não coloriu. Aqui no 11º andar, entre caixas que guardam memórias e o cheiro de uma vida que muda de CEP, eu busco o meu prumo.
O joelho dói, lembrando que o tempo é um mestre exigente, e a escada parece cada vez mais íngreme para quem carrega o inventário de décadas.
Mudar de casa é um exercício de desapego e de carpintaria espiritual. Estou selando buracos, organizando o closet da alma e ajustando a logística do cotidiano.
Não se trata do que se ganha ou do que se perde, mas do que se escolhe levar adiante. Vim para o Rio, para o convívio da minha filha, e esse é o porto seguro que justifica qualquer cansaço.
Não há números que traduzam o valor da paz. No meu canto de 3x3, sem cortinas para filtrar a luz que virá, dobro minhas roupas com o mesmo rigor com que datilografava meus textos de outros tempos.
O essencial é invisível ao olhar de quem busca ostentação; a minha vitória é silenciosa, feita de decisões tomadas na madrugada e de pequenos selamentos que garantem a dignidade do teto.
O sol vai bater forte à tarde, o cachorro vai latir na vizinhança e o trabalho bruto continuará pedindo braço e paciência.
Mas, ao fim do dia, o que importa é o banho que lava a poeira e o ar fresco de saber que a estrutura está firme.
O marinheiro não precisa mostrar o tesouro para provar que a viagem valeu a pena; basta-lhe o horizonte e o silêncio de quem sabe exatamente onde ancorou.
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