O Trigésimo Primeiro Degrau – A Casa e a Travessia
Hoje faz um mês. Trinta e um dias de um silêncio que a lógica não alcança. Em 16 de junho, entrarei naquela casa onde construímos 21 anos de história. Será, talvez, a experiência mais difícil que já enfrentei. Ao cruzar aquela porta, sei que cada sombra e cada fresta de luz nas paredes vão me lembrar do homem que eu era quando cheguei a Jaú: um estrangeiro em busca de rumo, que encontrou na Rachel não apenas uma esposa, uma mulher que ocupou um lugar onde minha vida pode criar raízes e seguir adiante.
Nossa parceria foi uma via de mão dupla, sem desvios. O apoio que dei a ela nos
seus projetos voltou para mim em forma de lealdade e de uma força que só agora
percebo o quanto era insubstituível. Construímos uma vida juntos, sonhos,
caminhos e planos. Fomos prósperos porque caminhávamos olhando na mesma
direção. E agora, ver o projeto dela de viver 110 anos em atividade ser
interrompido assim, de repente, me obriga a rever muita coisa sobre a própria
vida.
É duro. Dói.
E tenho pensado em como será entrar naquela casa. Para ser sincero, ainda não
sei como vou reagir.
Sinto o peso de ter que salvar o que restou de uma vida inteira enquanto vejo
coisas materiais seguindo rumos que eu não imaginava. Mas aprendi, depois de
tantos anos construindo e recomeçando, que a sustentação principal de um homem
não está nas paredes que ergueu. Está no que continua de pé dentro dele.
Estou fortalecendo corpo, mente e coração para enfrentar a ventania que a vida
resolveu trazer. Vou entrar naquela casa para resgatar algo que ninguém pode me
tomar: a honra de ter vivido duas décadas de amor absoluto. Talvez eu saia de
lá levando poucas coisas nas mãos. Mas espero sair levando comigo aquilo que
ela me ensinou sobre dignidade, parceria e coragem.
A dor é o que estou remoendo e removendo passo a passo, um pedaço de cada vez.
Superar não é esquecer — é aprender a seguir carregando aquilo que foi amor sem
transformar memória em prisão. Se a sorte favorece os destemidos, como dizia Alexandre,
o Grande, sigo caminhando.
Ainda não sei exatamente como será a próxima etapa.
Mas sei de uma coisa: a Rachel foi meu marco zero.
E é por ela, e por nós, que sigo arregaçando as mangas.
A jornada continua.
Fernando Tobgyal
(imagem gerada por IA)
(Construtor e Marinheiro de Longo Curso)
https://conexoesdamaturidade.blogspot.com

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