O Passageiro do 474
O sol ainda não venceu o cinza, mas o despertador da angústia não conhece soneca. São cinco da manhã e o Rio nublado lá fora não julga — apenas observa, com a cumplicidade de quem já viu mil naufrágios em terra firme. Hoje a jornada não é turística; é uma travessia de sobrevivência, como a rota emblemática do 474. A vida virou esse ônibus barulhento que cruza a cidade, do caos do Jacaré ao mormaço do Jardim de Alah. No 474 da alma, a gente não escolhe quem senta ao lado. Às vezes, o passageiro é a cobrança de um aluguel que sufoca; outras vezes, é o ufanismo de quem brilha enquanto a gente se apaga, ou o peso de um filho que se perdeu em curvas que o pai não desenhou. Olho para as mãos: elas tremem levemente, mas ainda sabem segurar o que é firme. A mochila com o laptop é o meu bilhete de embarque. Não é mais sobre carreira, é sobre ser "o cara que resolve". É sobre terminar o último serviço, entregar a última chave e saltar desse ônibus antes que ele me le...